Racismo e Discriminação Contra o Afro Descendente no Brasil: Está na Hora de Rever Esse (Pré) Conceito


Liliana Grecco Pereira

liliagrecco@gmail.com

Centro Universitário São Camilo-ES

 

O presente a seguir, busca analisar o racismo contra o Afro-descendente no Brasil, cujo mesmo, foi o último país a abolir formalmente o trabalho escravo. Ressaltando que a abolição da escravatura, fruto do interesse burguês pôs no mercado de trabalho mão-de-obra não especializada, ou seja, ocupação informal.  Isso contribui para a gradativa desvalorização do grupo Afro ao longo da história. Herdamos do período colonial um mundo repleto de preconceitos, apesar do intenso processo de miscigenação. Os negros eram tratados como seres inferiores, verdadeiros animais ou objetos, eram ridicularizados por seu aspecto físico, crenças ou por seus costumes. O passado do negro, explica sua posição social inferior na contemporaneidade, muitos resquícios das práticas escravistas vieram a contribuir para que ele passasse a ocupar os piores lugares no mercado de trabalho, as mais baixas remunerações e vestisse o manto de uma postura de malandragem e erotismo. Estereótipos construídos para criar uma ideia de negro enquanto sinônimo de indolente e não trabalhador. Essa realidade exige de toda a sociedade brasileira uma reflexão sobre a condição da população Afro-descendente no país.

 

O Brasil sempre procurou sustentar a imagem de um país sem preconceito racial, apesar das desigualdades estarem visíveis tanto na educação como no mercado de trabalho e no dia-a-dia. Este racismo enraizado, disfarçado, mas sempre presente e violento acontecem devido ao mito da democracia racial. Os homens brancos afirmam e reafirmam não serem racistas, que nada têm contra os negros, mas a sociedade brasileira branca, culta e educada, fala e até acreditam em suas palavras, porém suas ações não são bem assim.  Pode-se dizer que os mitos criados pelos racistas estão sendo apagados aos poucos, devido pela atuação brilhante de alguns Afro descendentes, em todos os níveis, estes têm provado em competência, capacidade e inteligência nos vários ramos de trabalho e em sua conduta ética perante a sociedade. Precisamos ter em mente, de que o racismo e a discriminação são uma construção social, que foi sendo construída ao longo da história. Portanto, se foram construídas, podem ser desconstruídas, e é a partir desta desconstrução que vamos nos libertar da ideologia do embranquecimento.

 

Observando nosso meio, nota-se que o racismo camuflado, disfarçado de democracia racial ainda esta presente em nossa sociedade. Tal mentalidade, se pensarmos, é tão perigosa quanto à declarada. E no ambiente escolar não são raras as vezes que os alunos negros sofrem discriminação através de apelidos, exclusão dos grupos, piadas de mau gosto, músicas que inferiorizam sua imagem e outras situações constrangedoras. As redes de sociabilidade do negro foram todas submetidas a uma pressão às vezes intolerável, que parece ter-se intensificado com o avanço do século XIX, quando a elite brasileira optou na criação de uma sociedade europeia. Isso significava, para os europeus mais radicais, destroçar a cultura africana até erradicar o negro da população do país. Não com programas de genocídio, mas com a adoção de estratégias políticas públicas explícitas de branqueamento demográfico cultural.

 

…o governo brasileiro iniciou, na segunda metade do século XIX, o estímulo à imigração europeia, numa tentativa explícita de “branquear” a população nacional. Milhões de imigrantes europeus entraram no país durante as últimas décadas do século XIX e no início do século XX. Essa força de trabalho foi contratada preferencialmente tanto na agricultura como na indústria que estava sendo implantada nas principais cidades. (Heringer, 2002, p. 58)

 

Contudo, os negros sobreviveram e se multiplicaram. Com mais força cresceram também os mestiços, sem que alcançasse o branqueamento dos brasileiros como queriam os ideias europeus. Mas um ambiente recém favorável à negação dos negros dificultou enormemente à sua integração no processo de organização sociopolítico do Brasil. Como os negros recém libertos não foram incorporados ao mercado de trabalho, muitos, ingressaram na economia informal e ao subemprego. Sendo essa a razão das péssimas condições de habitação, de educação e de saúde na qual a maioria dos Afro-descendentes são submetidos.

 

É um fato incontestável que, ao longo deste século XX, os negros, na maioria, continuaram muito pobres, enquanto os imigrantes europeus e seus descendentes foram melhorando suas vidas e prosperando até chegar às posições de comando político e social, partilhando o poder com as antigas elites dominantes. Para os negros ficava a expectativa de lutar pela conscientização desta realidade, compreender suas causas e, através de muito esforço, lutar por transformações que visassem à melhoria de suas condições sociais, econômicas e políticas de vida. (Maciel, 1994, p.106)

 

Ninguém nega que exista racismo no Brasil, mas sua prática é sempre atribuída a “outro”. Seja da parte de quem age de maneira preconceituosa, seja daquela de quem sofre com o preconceito, o difícil é admitir a discriminação e não o ato de discriminar. Além disso, o problema parece se o de afirmar oficialmente o preconceito, e não o de reconhecê-lo na intimidade.

 

A escravidão como prática em nosso país é profundamente disfarçada. Talvez não se venda mais o corpo do negro ou do trabalhador como outrora, porém, infelizmente, se negocia com a sua identidade, imputando-lhe uma “carga” de inferioridade e discriminação que fere tanto quanto a venda de seu corpo. (Both, 2006, p.17)

 

A discriminação ética coibindo o acesso do negro às escolas de nível superior e à sua participação nas posições melhores remuneradas no mundo do trabalho estão implícitas nas atitudes dos dirigentes educacionais e administradores empresariais, onde se detecta um número insignificante dos mesmos nestes ambientes. Tudo isso indica que estamos diante de um tipo particular de racismo, um racismo silencioso e sem cara, que se esconde por trás de uma suposta garantia da universalidade e da igualdade das leis, que lança para o terreno do privado o jogo da discriminação e do racismo. Com efeito, em uma sociedade marcada historicamente pela desigualdade, pelo paternalismo das relações e pelo clientelismo, o racismo só se afirma na intimidade. Não se afirma publicamente. No entanto, depende da esfera pública para a sua explicitação, numa complicada demonstração de etiqueta que mistura raça com educação e com posição social econômica.

 

É mais visível na escola, onde se encontra o maior número de crianças negras e mestiças o fluírem, ainda que disfarçado, o preconceito e as discriminações que permeiam na sociedade brasileira no que diz respeito aos negros. O Brasil, cuja população negra é ainda a segunda no mundo, nota-se que a escola, cujo papel deve ser o de preparar futuros cidadãos para a diversidade, lutando contra todo tipo de preconceito, acaba é reforçando o racismo, quando as crianças negras não conhecem sua própria história e o que é pior, há educadores que se negam em tomar partido quando o assunto é sobre os negros.

 

Curioso é quando as crianças negras abrem os livros, lê a história de outros povos e não vê a sua, ou seja, fica sem passado. Quando encontra algo é que foram escravos e não “heróis” como os “heróis” europeus. A dedução natural dessas crianças, ainda que inconsciente, é “não sou parte da história, portanto não pertenço à humanidade”.Isso dificulta a construção de uma identidade nacional. A diversidade é uma riqueza e não deveriam criar-se problemas. Não podemos construir a identidade brasileira a partir de uma única cultura, considerada superior, “a ocidental”. A criança precisa aprender na escola como cada povo contribuiu para o desenvolvimento do Brasil, incluindo os negros, os que trabalharam nesta terra. E que nenhuma dessas contribuições é melhor do que as outras.

 

O papel da escola é de fundamental importância no combate ao racismo e na implementação de medidas que permitam o mínimo de equidade no acesso aos diferentes níveis de ensino às crianças, jovens e aos adultos, que são ou foram privados da educação de qualidade. Os órgãos governamentais por meio de pesquisa tem se empenhado no fortalecimento e nas oportunidades através da oferta de educação de qualidade para todos e no combate da discriminação nas escolas, de qualquer forma de preconceito e discriminação e assegurar a igualdade de condição em todos os níveis de ensino.

 

Se as próprias instâncias governamentais se preocupam atualmente em trabalhar, no interior dos currículos, temas voltados para a superação da discriminação e da exclusão social étnico-raciais, deve-se considerar que estas mesmas instâncias reconhecem a existência da discriminação. (Silva, 2002, p. 31)

 

As ações do Governo demonstram interesse em minimizar os problemas raciais contra o Afro descendente. Um dos objetivos dos Parâmetros Curriculares Nacionais é a construção de currículos adequados às realidades regionais e a valorização da população local, além da valorização da população negra com ênfase na contribuição do negro na construção da nação.

 

Os PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais), criados pelo MEC em 1998, apesar do seu caráter de “parâmetro” e não-obrigatoriedade, complementar às orientações curriculares e à LDB/96, quando propõem a abordagem da “Pluralidade Cultural” como um tema transversal, com os objetivos, entre outros, de possibilitar o conhecimento do patrimônio étnico- cultural brasileiro; reconhecer as qualidades da própria cultura, valorizando- a criticamente e enriquecendo a vivência da cidadania; repudiar e denunciar toda e qualquer forma de discriminação baseada em diferenças de raça, etnia, classe social, crença religiosa, sexo e outras características individuais ou sociais. (Silva, 2002, p. 32)

 

Conscientes de que a cor da pele, ou determinadas características humanas, não interferem na capacidade das pessoas desempenharem funções administrativas, governamentais ou empresariais, deve-se reconhecer que esta havendo uma efetiva aplicação de igualdade de oportunidades nos bancos universitários e no mercado de trabalho. E através de medidas que levam ao engajamento entre o governo e a sociedade que será possível uma melhoria da qualidade de vida em geral para a população brasileira.

 

 

Referências

BEAUCHAMP, Jeanete.PAGEL,Sandra Denise.NASCIMENTO,Aricélia Ribeiro do,(Organ.) Indagações sobre currículo :  diversidade e currículo. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Básica, 2007.

 

BRASIL. Lei nº. 10.639 de 09 de janeiro de 2003. Inclui a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira” no currículo oficial da rede de ensino. Diário Oficial da União, Brasília, 2003.

 

BRASIL. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Brasília, 20 de dezembro de 1996.

 

BRASIL. Ministério da Educação Conselho Nacional da Educação. Brasília, 10 de março de 2004.

 

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CARNEIRO, Maria Luiza Tucci. O Racismo na História do Brasil: Mito e Realidade. 7ed. São Paulo: Ática, 1998.

COVEZZI, Marinet. Sociologia da educação. 2ª Ed. Cuiabá: EdUFMT,2002.87 p.

 

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MACIEL, Cleber da Silva. Negros no Espírito Santo. Vitória, Departamento Estadual da Cultura, Secretaria de Produção e Difusão Cultural/ UFES, 1994.121 p.

 

PINTO, Tania Regina. Negro, profissão, lazer. Rev. São Paulo em Perspectiva, São Paulo, 2(2): p.61-63. Abr./Jun.1988.

 

BOTH, Sérgio José. Racismo e discriminação no meio de todos nós. Mundo Jovem um Jornal de Idéias, Porto Alegre, Jul.2006. Sociologia. p.17.

 

SILVA, Eva Aparecida. A “competência” da mulher negra professora. Fazendo Gênero 8- Corpo, Violência e Poder. Florianópolis de 25 a 28 de agosto de 2008.

 

SILVA Jr, Hédio. Discriminação racial nas escolas: entre as leis e as práticas sociais. Edições UNESCO Brasil. Brasília 2002.

 

DONATO, Hernâni. História dos usos e costumes do Brasil: 500 anos de vida cotidiana. São Paulo: Melhoramentos, 2005.

 

D’ AMORIM, Eduardo. África: essa mãe quase desconhecida. São Paulo: FTD,1997.

 

FREYRE, Gilberto. Casa-grande e Senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal. 34ª ed. Rio de Janeiro: Record, 1998.

 

MUNANGA, Kabengele. Negritude: Usos e Sentidos. 2ª ed. São Paulo: Ática, 1998.

OLIVA, Anderson Ribeiro. A História da África nos bancos escolares. Representações e imprecisões na literatura didática. Estudos Afro-Asiáticos, Ano 25, n 3, 2003, pp.421-461.

 

ROCHA, Luiz Carlos Paixão da.  Políticas  Afirmativas e Educação: A Lei 10639/03 no Contexto das Políticas Educacionais no Brasil Contemporâneo. 135f. Tese (Mestrado em Educação e Trabalho)- Setor de Educação, Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2006. Disponível em: http://dominiopublico.qprocura.com.br. Acesso em: 6 jul.2010.

 

Síntese do artigo apresentado e publicado pela discente do 5º Período do curso de História Liliana Grecco no II Seminário Nacional de Africanidades e Afrodescendência “Formação de Professores e Histórias de Vida” realizado na UFES no ano de 2010.

 

Fonte: Liliana Grecco
Comunicação e Informação: Leila Marinho.

11 opiniões sobre “Racismo e Discriminação Contra o Afro Descendente no Brasil: Está na Hora de Rever Esse (Pré) Conceito”

  1. O artigo presente mostra uma realidade mascarada que infelismente ainda faz parte da nossa sociedade, é sempre interessante quando temos a oportunidade de ler um conteúdo que nos atente para modificar o rumo dessa hitória. O autor (a) esta de parabéns.

  2. Concordo plenamente com o que a Liliana demonstrou nesse artigo, por trás de um discurso contra o racismo existe, e muitos, pré conceitos. Ainda não se efetivou realmente, em nosso país a tão falada libertação dos escravos.

  3. Parabéns Lili, sempre muito inteligente e perspicaz em suas colocações.
    Combater o racismo é tarefa de toda sociedade, que precisa radicalizar nesse sentido.

    A ideologia dominante através de seus veículos de comunicação tenta nos vender uma falsa idéia de democracia étnica no país, que não se sustenta.
    O Brasil negro é mais pobre, tem menos estudo, menos emprego, está mais na cadeia, lidera os índices de homicídio contra jovens de periferia, entre outras mazelas.

    Só ações afirmativas podem reverter esse quadro a médio e em longo prazo. A implantação das cotas raciais nas universidades públicas foi é é um avanço significativo nessa política.

  4. Para lidar com as diferenças étnicas durante séculos os cristãos europeus mataram e aniquilaram outros povos, até conseguirem branquear e cristianizar a Europa. Para isso, se utilizaram da inquisição, nazismo e fascismo.
    Agora a diferença étnica está sendo enfrentada no Brasil, porém, com leis e argumentos.
    Acho que estamos lutando de uma forma mais humana e sensata, bem diferente do método que os cristãos utilizaram no passado.
    Parabéns Liliana, ótimo artigo.

    1. Parabéns companheira!!! Precisamos deparceiros(a) inteligentes para juntos de mãos dadas contribuirmos para a erradicação do preconceito em nosso país, que é vítima de uma democracia hipócrita e aparente produzida por um branqueamento pretencioso e sem fundamento.

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